Todo o cenário estava posto. A carta para a família, a banheira estava cheia de água quente, uma garrafa de whisky pra dar aquela calibrada e um pouco da coragem necessária. Ah, e o principal também, uma navalha que tinha pertencido a seu avô, utilizada principalmente para fazer a barba durante a uma guerra mundial.
Imaginou se o avô usou a navalha para matar algum soldado inimigo, fazendo um talho de orelha a orelha.
Meia garrafa de whisky depois, César, nu, mergulha dentro da banheira como se mergulhasse numa piscina. Ri e sem enrolação faz um corte profundo com a navalha em seu pulso esquerdo; um corte que começa perto da dobra do cotovelo e termina perto da mão.
O corte arde e com os olhos sedentos ele espera o sangue fluir em jorros para fora de seu corpo.
Mas é um rasgo seco, sem cor, sem vida.
César não entende. Enterra a navalha em seu outro pulso com mais força e profundidade, mas o resultado é o mesmo. Não há sangue saindo pelas feridas.
César fica sentado na banheira, horas depois da água já ter esfriado.
E num pulo, como se tivesse esquecido a panela no fogão, guarda a navalha no armário, enxuga-se, cobre seus cortes com uma gaze e guarda a carta para a sua família.
César tinha resolvido, nos próximos meses, arranjar um emprego, uma namorada com quem pudesse se casar, comprar uma televisão grande pra ter prestações a pagar durante meses, filhos para sustentar.
E então quando tivesse uma vida, aí sim, poderia dar um fim nela.
FIM
Nenhum comentário:
Postar um comentário